Error

Maior briga da Libertadores completa 50 anos

Por Leo Lepri

Maior briga da Libertadores completa 50 anos

Reprodução

Orlando de la Torre era perseguido por jogadores do Boca em fúria. Correu para um dos cantos do campo e, encurralado, não pensou meio segundo ao sacar do gramado aquele bastão de madeira que servia como mastro para uma das bandeirinhas de escanteio da Bombonera. Ao mesmo tempo, em Lima, enquanto assistia àquela barbárie toda, sua mãe sentia uma forte dor no peito e o braço esquerdo dormente. Era, que ironia, uma das primeiras partidas transmitidas via satélite, na Copa Libertadores de 1971.

“Ela viu claramente quando eu estava cercado por vários jogadores do Boca, até que consegui arrancar a bandeirinha de escanteio para me defender com essa pedaço de pau. Ela estava vendo tudo, ficou impressionada e faleceu de um ataque no coração. Como vou esquecer desta partida?”, contaria, anos mais tarde, o ex-jogador peruano à revista El Gráfico.

A partida mais violenta na história da Libertadores terminou antes mesmo de que pudesse ter um fim. Foi suspensa com um inigualável saldo de 19 atletas expulsos (poderia ter sido 20, pois o árbitro do encontro, o uruguaio Alejandro Otero, depois de rever a confusão pela TV, admitiu que errou ao não ter expulsado também o goleiro do Boca), outros 3 jogadores hospitalizados e os dois times presos.

Eloy Campos, Orlando de la Torre e Fernando Mellán, aquele Sporting Cristal de 71 — Foto: Reprodução

Eloy Campos, Orlando de la Torre e Fernando Mellán, aquele Sporting Cristal de 71 — Foto: Reprodução

Otero, o árbitro, relembrou aquela noite de quarta-feira: “A polícia me obrigou a descer pelo túnel por questões de segurança. Atiravam pedaços de pano em chamas e, em alguns setores, tentavam invadir o campo. Quando eu estava no vestiário fazendo minha prece à Virgem, apareceu uma pessoa que se apresentou como o policial de maior autoridade no estádio. Ele perguntou quem era o árbitro. ‘Eu’, respondi. ‘Você é o único responsável por tudo o que aconteceu’, ele me disse”.

Mas ele não era, é claro. “Nós brigamos por conta da impotência em não conseguir ganhar o jogo”, explicou, o ex-defensor do Boca, Rubén Suñé, morto em 2019.

Já falaremos melhor de Suñé. Antes, é preciso explicar que a Libertadores de 71, como era de costume, reuniu times de dois países no mesmo grupo. O Boca, campeão argentino de 70, era acompanhado pelo Rosario Central, vice. E os peruanos Sporting Cristal, flamante campeão nacional do mesmo ano, ladeado pelo compatriota Universitario.

Nessa época, quando viajavam, os clubes ficavam longos períodos no país de visita para fazer as duas partidas pelo torneio internacional. O Sporting Cristal chegou a Buenos Aires já sem chances no grupo. Mas um empate ajudaria na classificação do Universitario. Já o Boca precisava, sim ou sim, de uma vitória em casa para avançar às semifinais.

Jornais de todo o mundo repercutiram a briga na Bombonera. — Foto: Reprodução

Jornais de todo o mundo repercutiram a briga na Bombonera. — Foto: Reprodução

Tudo acontecia relativamente bem. O Boca vencia por 2 a 1 no segundo tempo e 60 mil almas sacudiam cada pedaço do cimento da Bombonera. Até o Sporting Cristal empatar. Logo os gritos de incentivo passaram a ser de cobrança. O Boca tentava de todos os jeitos. Faltando seis minutos pro final, Rogel caiu na área peruana e todo o estádio pediu pênalti para o Boca. O árbitro Alejandro Otero olhou, deu de ombros e mandou seguir.

Não seguiria. Imediatamente o argentino Suñé implicou por qualquer coisa com o peruano Alberto Gallardo e passou a buscá-lo pelo gramado. Gallardo corria e Suñé corria ainda mais atrás dele. A torcida do Boca, ao fundo, trilhava a perseguição “Y pegue… y pegue… y pegue, Boca pegue!

“Lembro que eu estava completamente fora de mim e persegui o Gallardo como um louco. No desespero, ele deu um chute e os cravos acertaram a minha cara. Eu enlouqueci ainda mais. No meio desse tumulto todo, apareceu um sujeito que tentou ficar entre nós dois. Eu empurrei ele e o atirei no chão. Só depois, no vestiário, descobri que era o delegado da polícia”, contou Suñé ao Gráfico.

Foram necessários três policiais para conter o enfurecido Suñé. Mas, àquela altura, a briga já acontecia em diversos lugares do campo. Em pequenos grupos, por exemplo, dois jogadores corriam atrás de um pobre cristão aqui, três se revezavam nos chutes em outro que estava no chão ali, e o pobre de la Torre girava a bandeirinha de escanteio pelo ar com surpreendente habilidade.

Rubén Suñé só parou de brigar quando três policiais conseguiram segurá-lo. — Foto: Reprodução

Rubén Suñé só parou de brigar quando três policiais conseguiram segurá-lo. — Foto: Reprodução

“Aquele foi um pesadelo que nunca vou esquecer. Quando o Suñé me perseguia, pensei que não fosse sair com vida daquele estádio”, recordou Gallardo, falecido em 2001.

Quando a polícia finalmente conseguiu controlar os pugilistas, enquadrou todo mundo por “incidentes e alteração da ordem pública”. Os jogadores de Boca Juniors e Sporting Cristal se reencontraram na delegacia, onde passaram a noite e só foram liberados na tarde do dia seguinte, quinta-feira. Fernando Mellán, com uma concussão cerebral, e Eloy Campos, nariz quebrado, foram os jogadores do Cristal levados ao hospital. E Suñé terminou no pronto-socorro para costurar o rosto com sete pontos, fruto da tremenda PATADA VOLADORA recebida de Gallardo.

Ao chegarem no hotel, os peruanos receberam um telegrama enviado diretamente pelo presidente do país andino. O general Velasco Alvarado gostaria de felicitá-los por “defenderem o escudo com honra e fidalguia”. A mensagem quase gerou uma crise diplomática entre Argentina e Peru. Só depois da segunda partida prevista como visitante, contra o Rosario Central, é que o Sporting Cristal retornou ao seu país. E mesmo eliminado da Libertadores foi recebido com festa por centenas de torcedores.

Torcedores receberam os jogadores do Sporting Cristal no aeroporto de Lima. — Foto: Reprodução

Torcedores receberam os jogadores do Sporting Cristal no aeroporto de Lima. — Foto: Reprodução

Sobre Orlando de la Torre, ele não passou aquela noite, depois da confusão, na cadeia. A notícia do falecimento de sua mãe já havia chegado a Buenos Aires, mas os dirigentes preferiram não dar a notícia. Contaram que deveria voltar imediatamente pois ela estava internada: “Às três da manhã me tiraram da delegacia onde estávamos todos presos. Achei estranho porque a ordem era para ninguém sair. Tive um pressentimento estranho, que ficou ainda mais forte quando cheguei no hotel. Eles me disseram que viajaria imediatamente a Lima porque minha mãe estava com a saúde delicada. Quando cheguei em casa eu não queria acreditar…”

Mais em @leo_lepri

Fonte: GE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *